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alugar ou comprar? o que os números dizem sobre a casa própria

A casa própria é um dos maiores sonhos do brasileiro. Mas existe uma pergunta que pouca gente faz antes de assinar o financiamento: será que agora é o momento certo?

Não se trata de ser contra ou a favor de comprar imóvel. Trata-se de entender que a mesma decisão pode ser ótima para uma pessoa e desastrosa para outra, dependendo do momento financeiro de cada uma.

a ordem que ninguém ensina

Existe uma sequência que faz sentido e uma que quase sempre dá errado.

A sequência que dá errado é a mais comum: a pessoa decide que quer a casa própria, vai atrás do financiamento antes de ter a vida financeira organizada, assume uma dívida de 20 ou 30 anos, e descobre alguns meses depois que não sobra nada para investir, para emergências ou para qualquer imprevisto.

A sequência que funciona é o caminho inverso: primeiro você resolve a vida financeira, constrói uma base sólida, e só depois realiza o sonho. Pode parecer que demora mais. Na prática, protege você de transformar um sonho num pesadelo.

O problema é que o brasileiro tem pressa. A pressão familiar, o medo de “jogar dinheiro fora no aluguel” e a crença de que imóvel sempre valoriza empurram muita gente a comprar antes de estar pronta financeiramente. E aí chegam os problemas.

quando o aluguel é a decisão mais inteligente

O aluguel faz sentido em algumas situações específicas, e a lógica não é só para quem está começando.

Se você está num momento de crescimento acelerado de renda, sabendo que sua situação vai mudar nos próximos dois ou três anos, financiar um imóvel hoje pode te prender num espaço que não vai mais servir em pouco tempo. Você compra um apartamento de um quarto com o que cabe no bolso agora, mas em dois anos precisa de dois quartos e ainda tem que honrar o financiamento do lugar que ficou pequeno.

O custo disso é duplo: você paga o financiamento do imóvel que não usa mais, e paga aluguel do lugar em que está vivendo de fato. Sem contar o trabalho de colocar o primeiro imóvel para alugar, lidar com inquilino e manutenção, e ainda torcer para o aluguel pagar a parcela. Muitas vezes, não paga. Um imóvel financiado com parcela de R$ 1.000 costuma alugar por menos do que isso, gerando um rombo mensal que vai direto no orçamento do proprietário.

Outro ponto que raramente entra na conta: imóvel tem custo de envelhecimento. Não são só os reparos que o inquilino causa. Móveis planejados ficam velhos, banheiros amarelam, infiltrações aparecem, a fachada precisa de pintura. O proprietário arca com tudo isso ao longo do tempo para manter o imóvel em condições de aluguel. Quem mora de aluguel não tem esse problema.

o cálculo que surpreende muita gente

Imagine alguém com R$ 500.000 disponíveis. A escolha óbvia parece ser: use esse dinheiro para comprar um apartamento e pare de pagar aluguel.

Mas existe uma alternativa que os números mostram de forma diferente.

Se esse R$ 500.000 for investido em uma carteira de fundos imobiliários com rendimento médio de 0,85% ao mês, esse valor gera R$ 4.250 por mês em dividendos, sem imposto de renda. Se o aluguel do apartamento que essa pessoa ocupa custa R$ 2.200 por mês, sobram R$ 2.050 de renda passiva todos os meses, mesmo pagando o aluguel.

Em vez de imobilizar meio milhão num único ativo, o dinheiro continua trabalhando, gerando renda, e a pessoa mantém a liberdade de mudar de cidade, de apartamento ou de país sem ter que vender imóvel, esperar comprador e pagar imposto sobre o lucro.

Isso não significa que comprar imóvel é sempre errado. Significa que o cálculo é mais complexo do que parece. E que “parar de jogar dinheiro fora no aluguel” pode, dependendo do caso, ser o raciocínio que faz você perder dinheiro.

pagar aluguel não é jogar dinheiro fora

Essa frase precisa ser questionada diretamente.

Quando você paga plano de saúde, não reclama que está jogando dinheiro fora. Quando paga a conta de internet, também não. Você está trocando dinheiro por um serviço que usa.

O aluguel funciona da mesma forma. Você paga por um espaço para morar, com a vantagem de não ter dívida de longo prazo, não ter IPTU no seu nome, não ter que se preocupar com manutenção estrutural e com a liberdade de sair quando quiser sem burocracia.

A compra do imóvel, por outro lado, tem custos que o aluguel não tem: ITBI na compra, cartório, corretagem na venda, IPTU todo ano, condomínio se for apartamento, manutenção ao longo dos anos, e a liquidez baixa, que significa que se você precisar de dinheiro rápido, o imóvel não te ajuda.

as quatro regras para comprar sem errar

Para quem tem o sonho da casa própria e quer realizá-lo sem comprometer a saúde financeira, existem quatro condições que, juntas, indicam que é o momento certo.

Reserve de emergência formada. Antes de qualquer coisa, você precisa ter de seis meses a um ano do seu custo fixo mensal guardado em renda fixa com liquidez. Com R$ 3.000 de custo fixo mensal, a reserva precisa estar entre R$ 18.000 e R$ 36.000. Sem isso, qualquer imprevisto durante o financiamento, uma demissão, um problema de saúde, uma reforma urgente, pode fazer as parcelas atrasarem e a situação desandar rapidamente.

Custo total de moradia dentro de 30% da renda. Some a parcela do financiamento, o IPTU mensal dividido por 12, o condomínio, água e luz. Esse total não deve ultrapassar 30% da sua renda mensal. Se você ganha R$ 5.000, o teto de moradia é R$ 1.500. Se a conta não fechar dentro desse limite, o financiamento vai espremer o resto do orçamento e criar um estresse financeiro constante.

Os aportes mensais não podem parar. Se você investia R$ 500 por mês antes do financiamento e depois não vai mais conseguir investir nada, pense duas vezes. Construir patrimônio exige consistência. Um financiamento que zera a capacidade de investir é um financiamento que posterga a independência financeira por décadas.

A entrada não pode ser emprestada. Pegar crédito para dar entrada em um financiamento é empilhar dívida sobre dívida. A entrada precisa ter sido construída com o tempo, guardada de forma consistente. Quando a entrada vem do próprio bolso, o financiamento começa com uma base mais sólida e um saldo devedor menor.

Quando essas quatro condições estão satisfeitas ao mesmo tempo, comprar o imóvel faz sentido. Você já tem segurança, já consegue absorver o custo sem comprometer o resto, continua investindo para o futuro e não está se endividando para pagar a dívida principal.

a pergunta que vale responder primeiro

Antes de começar a pesquisar imóveis, vale se perguntar: esse é realmente o melhor uso do meu dinheiro agora? Ou existe um caminho que me leva a uma situação financeira melhor primeiro, e só então ao imóvel?

Não existe resposta universal. Tem gente para quem comprar faz todo o sentido, seja pela estabilidade familiar, pelo apego ao lugar, pela segurança de ter um bem físico no nome. Tem gente para quem alugar é a decisão mais inteligente por anos, às vezes por toda a vida.

O que importa é que a decisão seja tomada com os números na mesa, não só com o peso do sonho. Sonho é importante. Mas sonho sem base financeira sólida costuma virar problema.


Perguntas frequentes

Pagar aluguel é realmente jogar dinheiro fora?

Não. Você está trocando dinheiro por um serviço, exatamente como faz com plano de saúde ou internet. A diferença é que o aluguel oferece flexibilidade, sem dívida de longo prazo e sem os custos de manutenção que recaem sobre o proprietário.

Qual é o percentual máximo que devo gastar com moradia?

O teto recomendado é 30% da renda mensal bruta, somando parcela do financiamento, IPTU, condomínio e contas de água e luz. Acima disso, o imóvel começa a comprometer as outras áreas da vida financeira.

Preciso ter a entrada guardada antes de financiar?

Sim, e não deve ser um dinheiro emprestado. Tomar crédito para dar entrada em um financiamento é empilhar dívidas sobre dívidas. A entrada precisa vir de uma reserva construída com o tempo.

E se eu quiser comprar mas ainda não tenho reserva de emergência?

O caminho mais seguro é construir a reserva primeiro. Comprar antes disso significa que qualquer imprevisto, desemprego, doença, uma reforma, pode fazer as parcelas atrasarem e virar uma bola de neve difícil de desfazer.