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LCI e LCA: como funciona a renda fixa isenta de imposto de renda

Toda vez que a taxa de juros muda, os investimentos de renda fixa isentos de imposto de renda voltam a ganhar atenção. LCI e LCA são dois exemplos clássicos: pagam sem desconto de imposto de renda, mas a rentabilidade oferecida costuma ser um pouco menor do que a de um CDB comum. Vale a pena entender como esses dois números conversam antes de decidir onde colocar o dinheiro.

O que são LCI e LCA

LCI é a sigla para Letra de Crédito Imobiliário, e LCA para Letra de Crédito do Agronegócio. Na prática, funcionam de um jeito parecido com o CDB: você empresta dinheiro para um banco, e em troca recebe uma remuneração combinada, prefixada, pós-fixada atrelada ao CDI, ou corrigida pelo IPCA.

A diferença é a origem do dinheiro captado. O banco usa os recursos de LCI para financiar o setor imobiliário e os de LCA para financiar o agronegócio. Por causa disso, o governo isenta esses dois produtos de imposto de renda para pessoa física, como incentivo para que mais dinheiro chegue a esses setores.

Vale um parêntese sobre 2026, porque o assunto gerou muita confusão. Em 2025, uma medida provisória, a MP 1303, chegou a propor cobrar 5% de imposto sobre LCI e LCA emitidas a partir deste ano. A proposta fez barulho, mas não foi aprovada pelo Congresso e perdeu a validade. Na prática, até agosto de 2026, LCI e LCA seguem 100% isentas de imposto de renda para pessoa física. É um tema que volta ao debate de tempos em tempos, então vale acompanhar, mas hoje a isenção continua de pé.

Por que a isenção pode compensar uma taxa menor

Aqui está o ponto que mais gera confusão. Um CDB pode anunciar um percentual do CDI mais alto do que uma LCI ou LCA, e mesmo assim render menos no final, porque o CDB sofre desconto de imposto de renda, que varia de 22,5% a 15% dependendo do prazo da aplicação.

Um exemplo numérico ajuda a enxergar isso. Desde 6 de agosto de 2026, a meta Selic está em 14,00% ao ano, e a Taxa DI divulgada pela B3 está em 13,90%. Imagine dois investimentos de R$ 10.000, aplicados por um ano, com o CDI nesse patamar:

Um CDB pagando 110% do CDI renderia, bruto, cerca de R$ 1.530. Depois de descontado o imposto de renda de 17,5%, que é a alíquota para aplicações entre um e dois anos, o rendimento líquido cai para aproximadamente R$ 1.260.

Já uma LCA pagando 95% do CDI renderia cerca de R$ 1.320 no ano, e como é isenta, esse valor fica inteiro no bolso, sem desconto.

Ou seja, mesmo com uma taxa nominal mais baixa, a LCA rendeu mais no final do que o CDB de taxa aparentemente mais atraente. A conta certa nunca compara taxa contra taxa, compara o quanto sobra depois do imposto.

O que olhar antes de escolher uma LCI ou LCA

A instituição emissora

LCI e LCA contam com a garantia do Fundo Garantidor de Créditos, o FGC, até R$ 250 mil por CPF e por instituição, com um teto global de R$ 1 milhão a cada quatro anos somando todas as instituições. Isso reduz bastante o risco de perder o dinheiro caso o banco emissor enfrente problemas, mas vale lembrar que acionar o FGC leva tempo, e durante esse período o dinheiro fica indisponível. Não é hipótese distante: com a liquidação de bancos como o Master, decretada no fim de 2025, muita gente precisou recorrer à garantia na prática, e o reembolso, embora tenha saído, levou alguns meses. Por isso, buscar uma taxa um pouco maior num banco pequeno e menos conhecido nem sempre compensa o risco extra e a dor de cabeça de um possível acionamento de garantia.

O valor mínimo de investimento

Muitos bancos e corretoras exigem um valor mínimo mais alto para LCI e LCA do que para CDB, às vezes a partir de alguns milhares de reais. Vale pesquisar em mais de uma instituição antes de decidir, já que esse mínimo varia bastante.

A carência

Diferente da poupança ou de alguns CDBs com liquidez diária, a maioria das LCIs e LCAs tem carência, um prazo mínimo durante o qual o dinheiro não pode ser resgatado. Esse prazo pode ser de noventa dias, de um ano, ou até mais, dependendo do papel. Isso torna esses investimentos mais indicados para reservas de médio e longo prazo, não para o dinheiro que você pode precisar usar no mês seguinte.

Como decidir entre LCI, LCA e CDB

Uma forma prática de comparar é converter tudo para uma mesma base: o rendimento líquido esperado no seu prazo. Para isso, pegue a taxa anunciada de cada produto, calcule o rendimento bruto no período, e no caso do CDB, desconte o imposto de renda conforme a tabela regressiva.

Se depois dessa conta a LCI ou LCA ainda render mais, mesmo com a taxa nominal menor, ela tende a ser a escolha mais eficiente para aquele dinheiro específico. Se o CDB, mesmo pagando imposto, ainda superar o rendimento líquido da LCI ou LCA, ele pode ser a opção melhor, principalmente se tiver liquidez diária e você valorizar ter o dinheiro disponível a qualquer momento.

Prefixado, pós-fixado ou atrelado ao IPCA

LCI e LCA também variam quanto ao tipo de rentabilidade, e essa escolha muda o risco que você assume.

No modelo pós-fixado, atrelado ao CDI, o rendimento acompanha a taxa básica de juros durante todo o período. Se a taxa sobe, você ganha mais, se cai, ganha menos. É a opção mais indicada para quem não quer se comprometer com uma previsão de juros futura.

No modelo prefixado, você trava uma taxa fixa no momento da aplicação, por exemplo 11% ao ano, independentemente do que aconteça com os juros depois. Faz sentido quando você acredita que a taxa de juros vai cair no futuro, porque aí você já garantiu um rendimento maior do que o mercado vai pagar mais adiante. Se a taxa subir em vez de cair, você fica com um rendimento menor do que teria conseguido esperando.

Já o papel atrelado ao IPCA paga a inflação do período mais uma taxa fixa adicional, algo como IPCA mais 6% ao ano. É a opção mais indicada para quem quer proteger o poder de compra do dinheiro no longo prazo, já que garante ganho real, acima da inflação, independente de quanto ela varie.

Não existe um tipo certo para todo mundo. A escolha depende do prazo que você tem disponível, de quanto você confia nas suas próprias previsões sobre juros e inflação, e de qual parte da sua reserva esse dinheiro representa.

Um cuidado com o momento do mercado

Vale lembrar que as taxas de LCI e LCA variam bastante ao longo do tempo, de acordo com a necessidade de captação dos bancos emissores. Em alguns períodos, encontrar papéis pagando 95% ou mais do CDI é fácil. Em outros, a oferta fica mais escassa e as taxas caem. Por isso, antes de investir vale pesquisar em mais de uma corretora ou banco, comparar o que está disponível no momento e não se basear apenas no que alguém comentou meses atrás, porque a taxa que valia então pode não existir mais hoje.

Para fechar

LCI e LCA são bons exemplos de como, em finanças pessoais, comparar apenas a taxa anunciada pode levar à decisão errada. O que importa de verdade é o quanto sobra no seu bolso depois de todos os descontos, dentro do prazo que faz sentido para o seu objetivo. Fazer essa conta antes de aplicar evita escolher um investimento só porque parece render mais, quando na prática rende menos.

Onde esses papéis fazem mais sentido na sua reserva

Por causa da carência e da ausência de liquidez diária na maioria dos casos, LCI e LCA costumam encaixar melhor em uma parte específica do seu dinheiro, aquela reserva de médio prazo que você já sabe que não vai precisar tocar nos próximos meses. Pense em um valor guardado para trocar de carro daqui a um ano, para uma reforma planejada, ou para complementar uma reserva de emergência que já está garantida em outro investimento com liquidez imediata.

Não é recomendável colocar toda a sua reserva de emergência em LCI ou LCA, justamente pela carência. O ideal é manter uma parte em algo com resgate imediato, como um CDB de liquidez diária ou a própria poupança, e deixar o restante do dinheiro, que você sabe que não vai precisar no curto prazo, rendendo mais em papéis isentos como LCI e LCA. Essa divisão evita o desconforto de precisar do dinheiro numa emergência e descobrir que ele está preso até o vencimento.

Perguntas frequentes

LCI e LCA têm garantia do FGC?

Sim, até o limite de R$ 250 mil por CPF e por instituição financeira, dentro das regras vigentes do Fundo Garantidor de Créditos.

Vale mais a pena LCI/LCA ou CDB?

Depende da taxa. Como LCI e LCA são isentas de imposto de renda, uma rentabilidade menor pode ainda assim render mais no bolso do que um CDB tributado. O jeito certo de comparar é olhar o rendimento líquido dos dois, não a taxa anunciada.

Consigo resgatar o dinheiro quando quiser?

Normalmente não. A maioria das LCIs e LCAs tem carência, um período mínimo em que o dinheiro fica preso antes de poder ser resgatado. Isso deve entrar na decisão antes de aplicar.